Maria Madalena Fontes Machado
Um Exemplo de Vida

Com menos de 3 anos estivera à morte, com uma meningite tuberculosa. Perante o corpinho já hirto, de olhos escamados e sem qualquer sinal vital, o médico reconheceu a impotência da ciência e aconselhou: Estejam preparados… E o vestidinho branco e os sapatinhos ficaram prontos.
Deus, porém, na Sua divina misericórdia, e atendendo às súplicas dos pais angustiados, interveio poderosamente e a menina foi salva, ficando sem qualquer sequela e com melhor saúde que antes. E o Senhor da Vida concedeu-lhe mais 70 anos!
Sendo a penúltima dos 6 filhos do Pastor Joaquim e D. Isménia Machado, fundadores do Lar Evangélico Português, em Julho de 1948, a Madalena, então com 11 anos, viu aumentar gradualmente a família com meninos que surgiam de diferentes lugares em busca de aconchego e ajuda. Ao princípio, ainda podia brincar com eles descontraidamente, mas cedo começou a ser solicitada para ajudar no trabalho e assumir responsabilidades regulares e definidas no ministério do Lar. Os planos de Deus para a sua vida iam começando a ganhar forma.
Criada no seio de uma família totalmente dedicada ao Senhor e à Sua soberana vontade, a Madalena cedo aceitou Jesus no seu coração e Lhe consagrou toda a sua vida. No desejo de se preparar melhor para o apoio espiritual a dar aos meninos do Lar e servir a sua igreja, com 19 anos ingressou no primeiro Curso de Educação Cristã para meninas, a funcionar em Leiria, sob a direcção do Seminário Teológico Baptista. Aí estudou 2 anos, concluindo o seu curso.
De novo no Porto, embrenhou-se cada vez mais na vida do Lar, assumindo com total dedicação e impressionante alegria a missão de ser uma das Mamãs de tantos meninos que continuavam a ser recebidos no Lar. E isto ao longo de dezenas de anos. Trabalho exaustivo e incessante, feito sempre numa atitude de disponibilidade total e genuína alegria! Às vezes, já mais para o fim, nós, família e amigos mais próximos, dizíamos preocupados: Vocês não aguentam toda essa carga… mas ela e as outras obreiras sempre diziam, com um sorriso: Nós não nos queixamos! E continuavam…
Fazer todo o trabalho que pesava sobre ela na Obra do Lar era só por si mais do que muitos achariam possível realizar, mas a Madalena foi também, e sempre, um exemplo de fidelidade como membro da igreja, tendo desempenhado cargos diversos, tais como professora da EBD, diaconisa e presidente da União Feminina. E por mais cansada que estivesse, jamais faltava a qualquer dos cultos ou actividades, regulares ou especiais.
Mas podíamos encontrá-la com idêntico entusiasmo envolvida no trabalho cooperativo, tanto a nível da Convenção Baptista Portuguesa como da Associação Baptista do Norte, em especial no Departamento Feminino. Também a Aliança Pro-Evangelização de Crianças teve sempre nela um membro activo e interessado, tanto na direcção como no ensino, ou em actividades especiais. O seu entusiasmo era evidente em tudo o que fazia.

Amante da leitura, sempre procurava livros inspiradores não só para ela própria ler, como para oferecer em aniversários, ou noutras ocasiões especiais, aos muitos familiares e amigos de que nunca se esquecia. As livrarias evangélicas tinham nela uma cliente fiel e de que vão sentir falta. Foi por esse amor à leitura que ela foi também colaboradora da revista «A Missionária» (O Lar Cristão), numa secção dedicada à sugestão de bons livros.
O amor por Missões e pelos que Deus chamava para a seara era igualmente real e activo. Deliciava-se em ler biografias de missionários, em ouvir as informações sobre a acção do Espírito Santo nos diferentes lugares da terra, orava regularmente pelos diferentes obreiros e apoiava com generosidade a Obra de Deus, a nível nacional e mundial.
Foi na tarde de 22 de Novembro que a Madalena (Mlena, para os meninos e jovens do Lar) nos deixou. Tínhamos ido juntos à Igreja, participámos na Escola Dominical e no culto. No fim, como de costume, cumprimentou e despediu-se amavelmente dos Irmãos, dizendo «Até logo» aos que esperava ver no culto da noite.
Depois do almoço começou a sentir-se muito cansada e com dificuldade em respirar. Foi chamado o INEM que logo lhe aplicou oxigénio e a transportou (acompanhada pela irmã Isabel – a Beca) para o hospital. Todos esperávamos que fosse por pouco tempo e que logo estaríamos de novo juntos.
Íamos precisamente a caminho do hospital para estarmos perto dela, quando o nosso telemóvel tocou. Era a Beca a dar-nos a inesperada e triste notícia: «A Leninha já partiu para o Senhor».
Foi muito difícil digerir essa comunicação. Agora que os médicos se mostravam tão satisfeitos com os sinais visíveis da sua recuperação e a comparavam com vantagem a outros doentes que haviam sofrido idênticos AVCs, esperávamos tudo, menos aquilo! E a mesma perplexidade atingiu todos os membros da igreja que tinham estado com ela de manhã. Não pode ser, ainda há pouco estivemos com ela e parecia tão bem…
Na EBD tínhamos estudado o Salmo 116. O versículo 15 fora lido em voz alta, mas nenhum de nós imaginava que poucas horas mais tarde aquelas palavras iam ganhar corpo e fazer todo o sentido na nossa experiência: «Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos.»
O mesmo Senhor da Vida que a poupara com cerca de 3 anos, chamava-a agora para a maravilhosa experiência da vida abundante e eterna com Jesus, seu SALVADOR e SENHOR. «O Senhor a deu e o Senhor a tomou. Bendito seja o nome do Senhor».

Ficou em nós uma imensa saudade! Saudade do seu sorriso genuíno, das suas gargalhadas espontâneas e contagiantes, do seu altruísmo e generosidade que faziam bem, que consolavam… que mostravam enfim a harmonia perfeita entre o seu coração e o coração de Deus! Sempre a dar-se, sempre a procurar ensinar, corrigir e animar com a Palavra do Senhor que a motivava em tudo. E mesmo sem conseguir ler de modo compreensível qualquer texto, ela sempre começava e acabava o dia com a leitura do LIVRO que amava mais do que qualquer outro – a BÍBLIA!
Até na maneira como enfrentava as limitações com que ficou depois da séria lesão cerebral causada pelo AVC sofrido em fins de Dezembro de 2008, ela nos tocava e inspirava. Tendo perdido a capacidade de ler, escrever, contar, tocar, construir naturalmente frases, reconhecer e reproduzir nomes ou palavras em geral, com o seu sentido, sempre revelou ânimo e tenacidade em fazer os exercícios indicados pela terapeuta e outros, não se poupando a esforços para avançar
Nunca a ouvimos lamentar-se ou lamuriar. Pelo contrário, do seu coração e dos seus lábios saíam incessantes acções de graças pela bondade do Senhor para com ela, para com a família, para com todos os amigos, para com o Lar. «Muito obrigada», era também uma expressão constante nos seus lábios, quando falava pessoalmente ou por telefone com alguém. Também nunca se esquecia de interceder junto de Deus por cada criança, adolescente ou jovem do Lar e da Igreja, ansiando ver cada um deles no Caminho que é Jesus, dando evidências duma vida nova.
Madalena Machado – um exemplo vivo, para cada um de nós, do que significa realmente AMAR A DEUS E AO PRÓXIMO!